Terça-feira, 29 de Julho de 2008

That's nice, hein?

O reencontro com uma experiência do passado é um exercício muito interessante e, no limite, é até pedagógico, porquanto nos oferece uma evidência da relatividade: mostra-nos que a nossa realidade não é A realidade, é apenas uma perspectiva possível.

Uma amiga minha costuma descrever esse processo reportando a sensação de voltar à escola primária e perceber o quão pequenas são aquelas mesas e cadeiras, cuja dimensão nos parecia ser a normal no tempo em que delas nos servíamos.

 

Hoje tive uma experiência semelhante: reencontrei um tio emigrado que já não via há muitos anos.

Em criança ele era o meu ídolo: porque era o tio que no Natal enviava um presente "made in Canada", coisa que mais ninguém tinha. A boneca até podia ser desengonçada, a pilha até podia estar gasta e e a musiqueta tocar com tom de cana rachada, as cores até podiam ser (a)berrantes, mas era sempre o presente mais aguardado e o mais estimado. Aquele era o tio "super cool".

Hoje reencontrei-o. E tal como as mesas e cadeiras da primária, também ele diminuiu (que é outra forma de encarar o meu crescimento). E pior, não é assim tão cool. Aqueles tiques de emigrante que tanta pinta lhe davam em tempos idos, dão-lhe agora um ar assim ... kitsch! E para piorar, remata todas as frases com um insuportável "That's nice, hein?".

 

música: The Prettiest Thing - Norah Jones
disparado por Luna às 17:19
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Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

A minha mãe já foi criança

Eu vou explicar: a minha mãe é uma senhora à moda antiga: toda ela é fé cristã e moral católica, "cruzes credo", "santinho".

Nunca lhe conheci prevaricação, a não ser uns quantos palavrões em tempos de maior tribulação, corrigidos, claro está, pelo "Deus-Nosso-Senhor-me-perdoe".

E ontem, já regada pelos dois goles de champanhe que a comemoração exigiu, lá confessou às duas crias que quando moça também ela tinha, como todas as meninas, aquela pressa pueril de crescer e ser mulher. E que à custa desse anseio também ela usou trapos velhos para fazer as vezes de umas maminhas que teimavam em não crescer. E o truque durou ... até ao dia em que um senhor, já avisado pela sua experiência paternal, estranhou a súbita mudança de visual e decidiu tirar a dúvida  a limpo. E assim descobriu que a sua dúvida era feita de algodão.

 

 

disparado por Luna às 21:11
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Sexta-feira, 14 de Março de 2008

E recordar é viver...

Não tenho muitas recordações da infância. Ou, por outra, tenho as minhas recordações, mas não sou aquele tipo de pessoa que vive voltada para o passado, a ruminar recordações. Mas hoje tive um agradável encontro com o meu passado. Assim, por acaso, como sempre são "aqueles" momentos. Vi, já ferrugenta, e mal estacionada, numa rua esquecida (ou ignorada... convenientemente ignorada) uma daquelas furgonetas cor de tijolo que, mensalmente, abasteciam os sonhos da garotada com variedade q.b. de literatura infantil. Sim, as Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian - nome dificil de soletrar na altura.

Lembro-me como se fosse hoje: escrevia num papelinho, arrancado da margem da derradeira página do caderno escolar, o dia em que a camioneta nos visitava e que a professora, no seu desvelo quase maternal, nos antecipava, na esperança de não deixar esmorecer o ânimo. A hora, essa, era sempre a mesma: 16h. Um dia levei para casa um livro da Heidi: "Heidi nos Alpes", acho. Era de capa dura e tinha umas ilustrações muito coloridas. No dia anterior à entrega descobri, desgostosa, revoltada e angustiada, que a minha irmã, mais velha, mas nem por isso mais consciente, havia recortado as gravuras e feito colagens curiosas na capa preta d seu caderno A4. Eu, que na altura ainda usava caderno A5 e tinha uma certa inveja do diferencial, não gostei do bricolage. Vá, não foi tudo inveja. Fiquei realmente aflita. Afinal, eu é que ia dar a cara pelo livro, agora mais pobre, sem a totalidade colorida das suas ilustrações. Fiz queixa ao pai. Ele barafustou com a prevaricadora, que fez "orelhas moucas".

Chegou o dia da entrega do livro. Esperei que ninguém desse por nada. Se repararm ou não, não sei. Ninguém me disse nada.
música: Raíz - Carlos Paredes
disparado por Luna às 11:52
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